Se o orçamento fosse uma feirinha…

Se o orçamento fosse uma feirinha

Se o orçamento fosse uma feirinha…

Esta simpática frase integra – pasmem – o documento de defesa da presidente Dilma Rousseff apresentado pelo advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, à Comissão Especial da Câmara que está analisando o processo de impeachment.

feirinha

“Vai uma cenoura aí, freguesa?”

Utilizando maçãs, cenouras e uvas, ele explica como os decretos presidenciais aumentaram o limite orçamentário, disponibilizando “mais produtos”, dentro da lei. Vamos à explicação “oficial”:

“No caso apontado na imagem, o orçamento seria uma espécie de ‘lista de compras’, que fica limitada a determinados produtos, como maçãs, cenouras e uvas. Para fazer uma alteração das alternativas de compra nessa lista, é necessário um crédito suplementar (mais uvas, por exemplo). Essa alteração possibilita um outro ‘mix’ de produtos (comprar mais uvas e menos cenouras), mas a quantidade de recursos que o cidadão tem, ou seja, o dinheiro no seu bolso (parte financeira) permaneceria a mesma.”

Bacana, né? Eu diria que os alunos da 2ª ou 3ª série do Ensino Fundamental tirariam um belíssimo 10 com essa explicação (fica a dica aqui: educação financeira é primordial nas escolas). Porém, aqui no meu modesto QG caipira paulista, vejo esse esquema deslocado no contexto de um documento oficial da Advocacia-Geral da União. Será que os excelentíssimos membros da Comissão precisam disso para entender trâmites orçamentários?

Esse exemplo vai de encontro a um problema amplamente discutido na construção de um discurso. Afinal, vale mais ser entendido por todos ou manter-se em um nível mais rebuscado na elaboração de frases?

No curso de jornalismo, logo no primeiro semestre, são passadas aos alunos duas regras fundamentais: simplicidade e objetividade. Simplicidade para escolher, entre duas palavras, a mais compreensível, e objetividade para que a transmissão da informação seja feita sem rodeios, sem enrolação.

No Direito, por outro lado, vemos que os discursos são praticamente ininteligíveis à grande massa, tanto que a linguagem de advogados, promotores, juízes e cia. limitada ficou conhecida no meio por “juridiquês”. Tentando desfazer-se dessa linguagem extremamente formal, o juiz João Batista de Matos Danda usou e abusou da linguagem coloquial em uma sentença trabalhista. Lucas, pedreiro, sofreu um acidente na obra de Itamar, dono da propriedade. e entrou com recurso para receber indenização, já que se seu chefe não disponibilizou equipamento adequado de segurança. “Se a pessoa sofre um abalo, uma tristeza, um constrangimento ou uma dor, por culpa de outro, tem direito a receber uma indenização de quem lhe causou isso. Não é qualquer dorzinha que dá direito a uma compensação em dinheiro, mas a que o Lucas teve e tem, certamente, é de indenizar”, diz o juiz no decorrer de seus argumentos”. E continua: “Não pode ser uma indenização tão pesada que vire um inferno para seu Itamar pagar; nem muito pouco, porque aí ele paga sem problemas e não se importa se amanhã ou depois outro acidente acontece em sua casa. Lucas, por sua vez, não pretende ficar rico com a tragédia; mas também o dinheiro tem que fazer alguma diferença na sua vida”.

Trocando em miúdos
Acho válidas as tentativas de “popularizar” textos, tornando-os mais compreensíveis ao grande público, porém esta prática deve ser adotada com cautela, já que não se pode admitir a banalização das produções. Um leitor de jornal que consome notícias de economia, por exemplo, está acostumado com o estilo mais sisudo do texto, e certamente ficará incomodado com linguagem mais simplista.

Da mesma maneira, qualquer portal de conteúdo mais “pop”, digamos assim, não pode furtar-se de conversar numa linguagem mais aberta com o seu público, criando a proximidade que se deseja.

Bom senso sempre!

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