Dunkirk: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

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Não é novidade que as salas de cinema estão saturadas de adaptações, continuações, reboots, remakes e tudo aquilo que é desprovido de criatividade. E o problema disso é que os estúdios investem cada vez menos em produções originais, já que o retorno financeiro é pouco confiável quando a propriedade não vem acompanhada por uma base preestabelecida de fãs — o público não comparece; a grana não entra no caixa. É por isso que Christopher Nolan só encontrou seu lugar sob os holofotes após o enorme sucesso de público e crítica da sua trilogia do Cavaleiro das Trevas. Daí em diante, seu nome virou sinônimo de garantia para os investidores e de qualidade para as massas, ou seja, um casamento perfeito onde todo mundo sai ganhando. Hoje, pode-se dizer que Nolan é um dos poucos a ter carta branca (leia-se cheque em branco) para filmar qualquer coisa da sua cabeça, por mais maluca e ambiciosa que seja. Ele dobrou uma cidade inteira em A Origem, viajou através de um buraco de minhoca em Interestelar e agora criou seu próprio simulador de guerra em Dunkirk. Sim, seu último trabalho é uma experiência cinematográfica sensorial e imersiva como nenhum outro filme do gênero, onde o expectador é jogado no meio da ação com o único objetivo de SOBREVIVER entre os milhares de soldados aos ataques ensurdecedores dos Stukas (os bombardeiros de mergulho alemães).

Dunkirk é baseado na Operação Dínamo, evento histórico que livrou 400 mil tropas aliadas das garras de Hitler durante a invasão da França pelas forças nazistas. Os britânicos e franceses foram cercados na cidade portuária de Dunquerque, onde eram alvos fáceis para os aviões da Força Aérea Alemã. O resgate precisou da ajuda de centenas de barcos civis e levou uma semana para terminar. Nolan pega esse cenário caótico e faz de Dunkirk sua caixinha de areia com brinquedos nada modestos, e ele sabe brincar como ninguém com tudo o que tem à disposição! A narrativa é dividida em três ambientes diferentes: terra, mar e ar. Sendo que cada um deles possui sua própria linha temporal, com o primeiro se passando num intervalo de uma semana, o segundo de um dia e o terceiro de apenas uma hora. E por mais que o enredo explore alguns personagens centrais nesses segmentos, nenhum deles chega a assumir o protagonismo de fato. Mas é visível, desde os primeiros minutos de projeção, que a pegada do filme não é sobre quem são essas pessoas, e sim a situação extrema em que elas se encontram. A partir do primeiro pipoco no ouvido seguido daquele pulo na cadeira, a bunda gruda no lugar e não solta mais até o “tic-tac” (o som do relógio presente de forma incessante na trilha sonora) parar depois de 106 minutos de pura tensão. O tempo é um elemento importantíssimo em Dunkirk, não só como ferramenta para transmitir urgência, mas também como algo simbólico para a história. Afinal, um único segundo desperdiçado pode valer uma (ou muitas) vidas.

Diferente de filmes como O Resgate do Soldado Ryan e o mais recente Até o Último Homem, Dunkirk consegue trabalhar o horror da guerra sem precisar mostrar uma gota de sangue ou a face do inimigo. Acredite, a sirene de um avião cortando o céu consegue ter um efeito tão aterrorizante quanto o gore de tripas e desmembramentos. Hans Zimmer e os responsáveis por toda a sonoplastia estão em estado de graça e são responsáveis por boa parte da atmosfera criada, além da impactante fotografia em IMAX de Hoyte Van Hoytema (as tomadas aéreas estão entre as mais impressionantes que já vi na telona). E vale mencionar que a quase inexistência de imagens geradas por computador também contribui bastante para o realismo da experiência — sou chato para essas coisas e não notei nada digital, mas sei que deve estar lá em algum lugar.

Apesar de tantas qualidades técnicas, Dunkirk não é o melhor filme de Christopher Nolan e muito menos pode ser considerado uma obra-prima. Os atores, em especial o Mark Rylance, aquele que tirou o Oscar das mãos do Stallone (ou Sly, para os mais chegados), fazem o melhor que podem dentro dos personagens limitados da história. Esse distanciamento emocional, mesmo que intencional por parte do diretor — e que aqui também assina o roteiro — deixa um certo vazio no fim da sessão. É como se a viagem em si fosse mais interessante que o próprio destino… Mas é aquele negócio, às vezes a paisagem vale muito a pena.

Minha nota: 4/5

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7 comentários sobre “Dunkirk: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

  1. Pingback: Rezenha Crítica Aliados 2017 | Rezenhando

  2. Meu Deus eu fiquei muito nervosa, tinha hora que queria sair correndo da sala do cinema de tão ansiosa que eu estava com as cenas. “Dunkirk consegue trabalhar o horror da guerra sem precisar mostrar uma gota de sangue ou a face do inimigo. Acredite, a sirene de um avião cortando o céu consegue ter um efeito tão aterrorizante quanto o gore de tripas e desmembramentos”. Exatamente isso, ótima resenha como sempre.

    Curtido por 2 pessoas

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